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sábado, 19 de janeiro de 2019

Sempre mais alto, ainda para além da morte


Sempre mais alto, ainda para


além


da morte




Fotografias cedidas pela biblioteca nacional

Feminista, ativista, jornalista, escritora. Figura proeminente do século XX português, Maria Lamas teve um relacionamento com o escritor Ferreira de Castro. Os dois terão depositado a sua correspondência, na presença de testemunhas, na Biblioteca Nacional. Desapareceu tudo

texto cristina margato

A 28 de fevereiro de 1982, Maria Lamas escreveu à filha mais nova, Maria Cândida, dizendo-lhe que a sua lista de obras estava incompleta: “Falta um, que só será publicado 30 anos depois da minha morte. Esse livro póstumo será a minha Ressurreição (...) Já está tudo tratado na Biblioteca Nacional há bastante tempo, e eu já tinha resolvido não dizer nada a ninguém. Aqui tens, querida filha, o meu segredo.” Maria Lamas morreu há 35 anos. O segredo está por revelar.
A filha mais nova, Maria Cândida, respondeu-lhe, por escrito, no mesmo dia, e da mesma casa, em Évora, onde viviam, numa altura em que Maria Lamas já estava muito surda: “Querida mãezinha, li a tua carta com muita atenção e fixei muito bem tudo quanto me dizes. Penso que não tens razão para estares assim preocupada. Tu não te lembras, mas eu recordo-te que, na ocasião do acontecimento a que te referes, tu própria me comunicaste o facto: Tinhas feito uma ‘escritura’, e de acordo com o Ferreira de Castro, ‘de comum acordo’ — e com um documento assinado pelos dois, e salvo erro pelo Álvaro Salema também, resolveram depositar na Imprensa Nacional as cartas que tinham escrito um ao outro para serem publicadas na data que indicavam: 30 anos após a morte do último a morrer. Como vês, estou perfeitamente a par dos acontecimentos. Não deves preocupar-te agora, com o que há tantos anos se passou e que nada poderá alterar. Penso que deves descansar a tua cabecinha para estar boa e ‘rija’ para as homenagens que se aproximam. Eu estou bem, mando-te beijinhos. Maria Cândida.” Além da carta, há também uma testemunha viva: Maria Antónia Palla, 85 anos, amiga íntima, e de longa data, de Maria Lamas: “Quando a conheci tinha 18 anos e ela já era uma senhora de cabelos brancos. Foi através da política que nos conhecemos, mas as nossas conversas sempre foram muito mais sobre os problemas das mulheres, os sentimentos das pessoas, os relacionamentos humanos. Com ela era completamente sincera.” Confidente de muitos, Maria Lamas foi uma intelectual ativa que não desprezou o amor nem os sentimentos. Lutava por eles: “O amor existe e transcende-nos. Ter a consciência disso é talvez atingir a própria essência do Amor.” Quem a conheceu, como Manuel Alegre no exílio de Paris e Argel, confirma a crença de Maria Lamas no amor. Ou a crença da avó Maria, como muitos dos mais jovens amigos lhe chamavam, nos tempos em que ela, exilada num quarto de hotel, na Rue Cujas, em Paris, no quarteirão da Sorbonne, recebia em peregrinação os refugiados políticos portugueses.

<p class="legenda"><span class="arranque">Escritor</span> Ferreira de Castro conheceu Maria Lamas quando ela, já divorciada, chega a Lisboa para trabalhar
Escritor Ferreira de Castro conheceu Maria Lamas quando ela, já divorciada, chega a Lisboa para trabalhar


Maria Lamas e Maria Antónia Palla encontraram-se no dia seguinte à ida dela e de Ferreira de Castro à Biblioteca Nacional: “Às vezes, ia buscá-la a casa de uma filha, no Restelo, e íamos conversar para outro lado.” Nesse dia, foram a Algés, e sentaram-se num café envidraçado de onde se via o Tejo: “Ela disse-me: ‘Sabes, ontem, eu e o Ferreira de Castro fomos à Biblioteca Nacional entregar as nossas cartas, e sabes outra coisa, eu e o Ferreira de Castro estivemos juntos na Madeira.’” A filha é a única que fala na Imprensa Nacional, mas as cartas não estão lá nem na Biblioteca Nacional.
JOANA D’ARC 
Ferreira de Castro (1898-1974) e Maria Lamas (1893-1983) conheceram-se em Lisboa, no início dos anos 20 do século XX. Maria Lamas acabara de se divorciar do seu primeiro marido com quem casara pelo registo civil aos 17 anos, logo a seguir à implantação da República, e do qual tinha duas filhas, Maria Emília e Manuela. O pai, Manuel Caetano da Silva, republicano e maçon, levara a família à falência, e o marido, outro republicano, oficial da cavalaria e aviador, Teófilo José Ribeiro da Fonseca, engravidara uma filha de Carmona, chefe a quem obedecia. “Um dia, ele chegou ao pé da minha avó e disse-lhe que por razões de honra militar tinha de se divorciar dela e casar com a jovem filha de Carmona, Maria Inês (mais tarde conhecida como a pintora Menez), que ela conhecia bem e que tinha menos 10 anos do que a minha avó”, conta o neto José Gabriel Pereira Bastos, 76 anos, antropólogo e psicanalista. Ribeiro da Fonseca prometia voltar aos braços de Maria Lamas. “Disse-lhe: ‘Daqui a um ano estamos de novo juntos.’ Mas ela recusa, e fica com as duas filhas. Sai de Torres Novas e muda-se para Lisboa. Introduz-se no ambiente jornalístico, artístico e intelectual alfacinha, pela mão de Virgínia Quaresma [a primeira jornalista portuguesa, fundadora da Agência Americana de Notícias], e encontra Ferreira de Castro, que vai ter uma importância muito grande na vida dela”, recorda Maria Antónia Palla. Para começar, os dois têm em comum a experiência da selva profunda — ainda que em continentes diferentes. Ferreira de Castro ficou órfão de pai, um camponês pobre, aos oito anos, e aos doze, em 1911, com a intenção de sustentar a família, partiu para o Brasil, para trabalhar num seringal da selva amazónica. Na mesma altura, Maria Lamas foi com Ribeiro da Fonseca até onde nenhuma mulher branca tinha ido antes, para acompanhar a missão para o qual o marido se voluntariara, a cumprir no Forte de Capelongo, na fronteira sul de Angola, grávida da primeira filha. Maria Emília haveria de nascer (em 1911) pouco depois de chegarem a Angola, e pouco antes de partirem para esse lugar remoto, vizinho do território da terrível tribo dos Cuanhamas, no qual acontecerá anos depois o massacre Naulila. Maria Emília nasceu com “um revólver apontado à cabeça do médico, não fosse algo de errado acontecer”, conta José Gabriel Pereira Bastos, filho dessa primeira filha de Maria Lamas. O fim do primeiro casamento, no qual ela se descobre uma “mulher decorativa”, encerrou um longo período de desilusões, sofrimentos e traições: “Ele era um homem louco, sôfrego, cobiçava todas as mulheres, fazia valer os seus direitos de macho. O amor para mim não foi uma experiência maravilhosa, como eu sonhara, foi antes muito dolorosa. (...) eu amava o amor.” Um dia, Maria Lamas apanhou-o com uma criada, coisa que não o amoleceu: “Não lhe falta nada, pois não?”, foi a resposta. A partir desse dia Maria Lamas nunca mais seria a mesma. O divórcio foi um fim para o que há muito terminara: “Tudo falhara na nossa vida conjugal; apenas se mantinha o entendimento no campo ideológico: a liberdade dos povos; um sentido mais perfeito de justiça na organização social.”
“Em frente do mar imenso, eu penso em si com uma tão grande perturbação e saudade que as palavras não bastam para lhe dizer...”, escreve Lamas
Sozinha, com as filhas, e o seu novo emprego, no qual era bem paga e bem tratada, Maria Lamas iniciou um percurso único, aquele que a transformou numa das mulheres mais importantes do século XX português. Lutaria, estaria sempre do lado das mulheres, denunciaria de modo cru e persistente as condições de pobreza em que viviam, como fez num dos seus trabalhos que é hoje mais recordado: “As Mulheres do Meu País”; grande reportagem publicada em fascículos entre 1948 e 1950. Nesse início da década de 20, dava então os primeiros passos para se transformar na confidente de muitos, dos amigos, dos homens, e, principalmente, das mulheres que lhe escreviam para os correios sentimentais, que foi criando na imprensa. Defendeu a emancipação individual das mulheres pelo trabalho e pela independência económica, e o direito à felicidade. Maria Antónia Palla é firme sobre o papel dela na sociedade de então: “Maria Lamas influenciou muitas vidas.”
Em Lisboa, acrescentou à consciência republicana que, como reconheceu nalguns escritos, absorvera do pai e também do marido, a vontade de se construir, deixando para trás a longa depressão em que caíra ao descobrir que o casamento não passava de “uma sociedade sentimental falida”. Cresceu com o pai a chamar-lhe “a minha Joana D’Arc”, heroína feminina canonizada precisamente em 1920, com quem partilhou uma fase mística. Teve essa fé, durante o período em que frequentou o Colégio de Jesus, em Torres Novas, a terra da família, e a ideia de Deus e de um amor cristão nunca a abandonou. “Amai-vos uns aos outros” foi um dos seus lemas. Com as freiras, com quem conviveu até aos 15 anos, e de quem se lembrará sempre com carinho, aprendeu a bordar, a tocar piano, a falar francês. No convento, onde era interna, também teve tempo para ler e para responder à pulsão de escrever, que nunca a abandonou: “Não procures forma literária: diz apenas.”
No ambiente exultante da capital não conheceu apenas Ferreira de Castro. Conheceu também o futuro marido. Cunha Lamas, jornalista, divorciado, cinco anos mais velho, “senhor da extrema-direita, monárquico profundo, talassa, que trabalha só em jornais reacionários que estavam a preparar a revolução de 1926,” conta José Gabriel Pereira Bastos. Casou-se em 1921, e logo depois nasceu a sua segunda filha. Maria Antónia Palla: “Ela acaba por aceitar o casamento, por um lado, porque a família dela a pressionava para ‘refazer a vida’. Por um lado, não ficava bem ser uma mulher só com duas filhas, por outro a própria consciência dela ainda não estava completa. A formação de Maria Lamas foi-se fazendo. ‘Refazer a vida’, naquele tempo, não era procurar emprego, profissão. Não era melhorar a educação, a instrução. Era arranjar um grande marido. Eu também senti essa pressão e acho que ela ainda hoje existe.”Ferreira de Castro levou-a para o jornal “O Século”, onde passou a dirigir a revista feminina “Modas e Bordados”, mas a relação com o escritor foi sempre mais do que profissional. Com ele desenvolveu um diálogo artístico, uma relação intelectual, de profunda admiração, uma disputa sobre a condição da mulher, a identidade da “mulher moderna” (tema que Maria Lamas desenvolverá nos seus escritos), uma amizade e até um amor. Um amor contrariado pelas condicionantes da vida, cujos contornos poderiam ser hoje mais bem conhecidos se as cartas que os dois terão depositado na Biblioteca Nacional, na presença do crítico literário Álvaro Salema, a quem Ferreira Castro delegou responsabilidades testamentárias, não tivessem desaparecido. 
Em 1930, Ferreira de Castro enfrentava (provavelmente) a maior crise da sua vida. Acabara de publicar “A Selva”, o livro que o tornaria em breve um escritor de dimensão internacional, candidato ao Prémio Nobel, lhe daria críticas elogiosas em jornais como o norte-americano “The New York Times”, conhecimentos em Hollywood e ingresso no prestigiado Pen Club francês, para o qual também levou Maria Lamas. Perdia tragicamente a mulher, Diana de Liz, a quem dedicava esse livro, aquela que também o tinha ajudado a regressar a esse doloroso tempo vivido na selva, e que durante muitos anos evitara: “Solidão imensa, uma vida encastoada na selva, alheia a todas as inquietações do mundo, uma vida tão à parte, tão obscura e ignorada (...) retiro de misantropos”. 

Escritora, defensora da emancipação feminina, que assinava nos jornais como Mimi Haas, Diana de Liz morreu a 30 de maio de 1930, de causa desconhecida. Num luto profundo, Ferreira de Castro partiu num barco para Inglaterra na companhia de outro escritor, Assis Esperança. Pelo caminho, assegura o neto José Gabriel Pereira Bastos, foi escrevendo cartas a Maria Lamas. “A relação entre eles era profunda.” Maria Antónia Palla recorda o que a filha mais nova da amiga lhe contou: “Uma vez a Maria Cândida disse-me: ‘Toda a gente acha que a minha mãe era muito bondosa, mas foi muito má para o meu pai. Um dia estávamos à mesa, e a minha mãe, que era uma pessoa de premonições, levantou-se e disse que o Ferreira de Castro estava a morrer, e saiu direita ao hospital. O meu pai sofreu muito com isso.’ Maria Cândida sempre esteve do lado do pai.” Ferreira de Castro enfrentava uma septicemia. O médico e historiador de arte Reynaldo dos Santos salvou-o. Mas em 1931, em dezembro, Ferreira de Castro insistiu na morte, e tentou o suicídio. “Há muito tempo que este momento ronda o meu coração. Estou de facto a sofrer, fatigado de viver do absurdo da vida. Não é um ato desesperado. É um ato reflexionado. Peço aos meus amigos que não peçam para me fazerem uma autópsia. Fui eu que abri voluntariamente as minhas veias. Este meu ato não significa qualquer desconsideração para com o Dr. Reynaldo dos Santos, que se me encontrasse antes salvava-me de certeza”, escreve num bilhete, guardado no Museu Ferreira de Castro. À cabeceira da cama de Ferreira de Castro esteve Maria Lamas. Foi também ela quem escreveu à mãe do escritor, a contar-lhe o sucedido. “É ela que de alguma forma vela por ele”, conta Ricardo Alves, diretor do Museu Ferreira de Castro, em Sintra, a preparar uma biografia sobre o escritor. Há também um postal depositado no Museu Ferreira de Castro, de 23 de agosto de 1931, no qual Maria Lamas escreveu a Ferreira de Castro: “Em frente do mar imenso, eu penso em si com uma tão grande perturbação e saudade que as palavras não bastam para lhe dizer...” 

Para convalescer, Ferreira de Castro partiu para a Madeira, onde escreveu “Eternidade”, um romance onde a morte se torna uma obsessão, assim como a crença de que um dia a Humanidade arranjará forma de não morrer: “Sim, o homem, um dia, venceria a inimiga, que zombava das suas ambições, dos seus esforços, dessa sensação de eternidade existente em todo o grande amor, dessa ânsia de imortalidade que torturava a vida humana.” 

“Eternidade” é um livro autobiográfico. Foi escrito em 1933. “O protagonista é um engenheiro que tem a idade de Ferreira de Castro, que conhece, em Sintra, uma mulher inglesa, casada com um homem mais velho. Envolve-se com ela ainda a mulher é viva. A relação é puramente sexual, mas ela acaba por ir ter com ele à ilha da Madeira, de onde ele é obrigado a partir para o exílio, com ela, depois de se divorciar do homem mais velho”, conta Ricardo Alves, aceitando que é interessante a visão do neto José Gabriel Pereira Bastos, que vislumbra nesta mulher a sua avó, Maria Lamas. Entre 1933 e 1934, Maria Lamas escreve “Para Além do Amor”, e o livro também conta a história de uma mulher casada com um filho que se apaixona por outro homem, Gabriel. No início, Maria Lamas diz: “Ao imaginar escrever este livro, tive duas grandes preocupações: ser sincera e ser mulher. Eram muitos os modelos femininos que a vida me oferecia. Podia ter copiado um ingénuo e heróico, de recorte impecável e atitudes serenas, que fosse exemplo de virtude, já no limiar do sublime (...) No entanto, preferi outro, humanamente imperfeito e inquieto.” A “alma torturada” da heroína é a de uma “mulher elegante” à procura de uma nova identidade, a que chamará “mulher moderna”. “Eu tenho sido a mulher que vai a todas as festas elegantes, veste bem, viaja e lê”, fechada num casamento com um homem autoritário, “para quem a vida é uma luta de interesses, em que só os fortes triunfam”. O dilema desta mulher é também entre a mãe e a mulher, entre a frieza dos homens, incluindo a do amante, e a necessidade de afeto que a mulher sente: “A mulher procura sempre espiritualizar o amor (...) O destino da mulher comporta um drama que, inferiorizando-a sob o ponto de vista filosófico, lhe dá direito à maior delicadeza, à maior ternura. E são tão poucas as que têm essa compensação! Sei de poucas mulheres que teriam a coragem de confessar assim a verdade!” O romance é publicado em 1935, com o ex-líbris “Sempre Mais Alto”, enquanto grito de liberdade. Em 1940, quando Ferreira de Castro escreveu “A Tempestade”, livro que começa com a história de um homem que quer matar a mulher por suspeita de infidelidade, a representação que o escritor fez das mulheres mostrou-se tacanha, machista. A primeira edição provocou escândalo. Esgotou. Na segunda edição, Ferreira de Castro alterou a narrativa, dizendo que na primeira edição só quis “ser fiel à vida”. 
Apesar de terem opiniões diferentes acerca da mulher, Maria Lamas continuou próxima do escritor. Em 1944, na véspera do aniversário dele, escreveu-lhe: “Nenhum outro sentimento, por mais intenso que seja, conseguirá apagar a lembrança do que se passou — lembrança que trago na minha alma e no meu próprio sangue (...) Ao menos uma vez, vivi em verdade, dá-me coragem, compensa-me tudo e chega a fazer-me orgulhosa.”
Ferreira de Castro e Maria Lamas só se irão encontrar na Madeira muitos anos mais tarde, como Maria Antónia Palla recorda. “Ela disse-me que eles estiveram juntos na Madeira. Era um desejo antigo, que vinha dos tempos da paixão. Mas que tinham ficado em diferentes hotéis.” Em 1972, 40 anos depois do primeiro postal apaixonado, enviado de Colares, os dois encontram-se finalmente “em frente a um mar imenso”. 

Maria Lamas está, nessa época, a escrever um guia sobre ilha da Madeira (“O Roteiro Romântico da Madeira”), a pedido do empresário Aníbal Trindade, que, à conta de uma depressão em que este cai logo de seguida, nunca será publicado. Ferreira de Castro chega sem aviso. Passeiam pela ilha. Ela escreve a Mário Neves, jornalista, amigo próximo com quem estabelece uma correspondência amorosa nos últimos anos de vida: “O F. de C. chegou ontem, ao fim da tarde, ao Funchal, onde tenciona ficar até ao dia 21. Telefonou-me imediatamente e ontem conversámos: disse-me com a maior naturalidade, como é próprio da nossa amizade sem recantos nem sombra de ambiguidade, que veio expressamente para descansar uns dias, ver-me, conversar comigo (...) confesso que me impressionou a alegria quase infantil que transparecia na sua expressão, na espontaneidade das suas palavras afetuosas (...) nunca estivemos juntos na Madeira — como, aliás, nunca viajámos juntos, com grande desgosto dele —, eu compreendi que esta vinda ao meu encontro representava para ele a realização de um sonho (...) A nossa amizade, fora do comum, justifica esta atitude, tanto mais que tenho a impressão que ele está regressando, talvez, a um estado de segunda adolescência, sob o ponto de vista emocional. Como explicar-lhe, a ele, que a nossa amizade em nada alterou, mas que a sua presença, agora, aqui, representa um pesadelo para mim, um motivo de permanente amargura pela ideia de poder desgostar-te, querido Mário. (...) Não queria que ele tivesse vindo. Porque não vieste tu?” O jornalista Vicente Jorge Silva, amigo de Aníbal Trindade, estava nessa altura na ilha. Conhecia a “Avó Maria” de Paris e, na Madeira, observou a cumplicidade entre os dois: “Testemunhei a grande ternura que tinham um pelo outro. Ele era de uma grande gentileza, mas estava muito em baixo, no crepúsculo da vida, Maria Lamas não [ele era mais novo que ela]. Ficava assim um bocado acabrunhada face ao estado dele. Deixavam trair o sentimento, via-se que tiveram amor um pelo outro.” Ele morreu em 1974, pouco depois do 25 de Abril. Ainda desfilou no 1 de Maio, onde é entrevistado por Glauber Rocha, e ela também, com Mário Neves. 

Ferreira de Castro teve outras relações, assegura Ricardo Alves, que está a preparar uma biografia sobre o escritor. Nomeadamente, entre o ano da morte de Diana de Liz e o casamento com Elena Muriel, pintora espanhola refugiada no Estoril, com quem viveu quatro décadas, e de quem o escritor teve uma filha, Elsa Beatriz. Diana de Liz, para pesar da mulher e filha, nunca deixou de estar presente. Ferreira de Castro mandou transladar os ossos da primeira mulher e erigiu-lhe um mausoléu. Não mais tirou a gravata preta. Ricardo Alves questiona a razão pela qual Maria Lamas e Ferreira de Castro nunca optaram por levar uma vida em comum, entre 1931 e 1936. Mas até essa data, ainda que separada de Cunha Lamas, desde 1936, Maria Lamas continuava casada. O vínculo com o pai da sua terceira filha só se desfez com a morte deste, em 1953. Ele nunca lhe deu o divórcio e, para viajar, Maria Lamas tinha de pedir à filha que intercedesse junto do pai para ela ter autorização para sair do país. Maria Antónia Palla recorda: “Ela foi uma mulher para quem a liberdade foi talvez o princípio orientador da vida dela, mas sempre conciliou isso com uma aceitação social muito grande. Ela era uma mulher respeitável e respeitada. Extraordinariamente livre, uma mulher muito avançada mas que pertencia à burguesia; quis manter o seu estatuto burguês e zelou pelo seu estatuto, pela sua inserção social. As famílias republicanas tentaram demonstrar aos monárquicos que em matéria de valores morais estavam em pé de igualdade com eles. Não era só uma igualdade cívica. Era uma igualdade de pensamento. Quase todos eles põem as filhas em colégios religiosos. Não é por acaso que isto acontece.”
Há uma caixa fechada no Museu Ferreira de Castro que só poderá ser aberta em 2050 e que guarda cartas amorosas
Uma vez, quando Maria Antónia Palla não sabia o que fazer da sua vida, se devia ficar com o pai do seu filho António Costa (atual primeiro-ministro), Orlando da Costa (escritor, comunista), ou aceitar a paixão por Victor Palla (arquiteto e fotógrafo), rumou ao Alentejo, onde a amiga vivia nessa altura, para lhe pedir a opinião. Maria Lamas respondeu-lhe: “Faz o que entenderes, mas sê discreta!” A amiga não tem dúvidas de que a filha Maria Cândida e o marido sabiam do caso com Ferreira de Castro. 
Em “Para Além do Amor” há outra possível explicação. Marta, a mulher que anuncia ao marido que tem um amante e que quer o divórcio, vê-se confrontada com a recusa veemente do marido: “Sabes bem o que representa para mim o divórcio? O escândalo, comentários, indiscrições, a fortuna que os meus me legaram e que honradamente multipliquei, dividida, retalhada, enfim, o desabar do edifício construído à força da tenacidade, a desordem, o desequilíbrio de toda a minha vida”. Em “A Tempestade”, de Ferreira de Castro, o divórcio também não é uma boa opção para o homem: “O outro até faria boa figura junto dos seus amigos e das mulheres que soubessem do caso, pois ter uma amante que era casada dava-lhe categoria. E dele, que procedera bem, que se sacrificara, é que fariam troça!”. 

TEOREMA DE PASOLINI 
A carta número 1000, na qual ela confessa a existência do segredo e da ressurreição, à filha Maria Cândida, foi descoberta por José Gabriel Pereira Bastos, no Espólio 28, da Biblioteca Nacional. Professor universitário, psicanalista, antropólogo e investigador, o neto não conviveu muito com a avó. Mas foi a ela que recorreu quando, “para não ir para África matar pessoas”, ingressou como piloto na Marinha Mercante. “Escrevi-lhe várias cartas. Ela pertencia a outro mundo.” Um mundo diferente do pai, militar. Depois visitou-a com a família em Paris, e lembra-se de ela lhe ter dito que ele era a personagem de “Teorema”, de Pasolini, filme a que ela tinha acabado de assistir. “Disse-me: ‘Tens de ir ver o filme. Tu és aquele, o anjo, arcanjo, que entra e destrói a família burguesa.’” De nome Gabriel, tal como o amante de Marta, em “Para Além do Amor”. 50 anos depois, José Gabriel Pereira Bastos está nessa posição, a desafiar a família, que até agora não mostrou vontade de cumprir o desejo de ressurreição de Maria Lamas. O neto fez um longo plano de edição para vários livros da avó. Chegou a preparar o primeiro, que até já tinha editor, Zeferino Coelho, editor da Editorial Caminho: “O Diário Íntimo de Maria Lamas/Primeiro Ato: O Despertar”. Mas quando a editora lhe pediu o documento em que os herdeiros davam a autorização necessária à publicação esbarrou na oposição da família. O Expresso contactou os herdeiros. Onze dos 14 responderam num e-mail conjunto dizendo que a edição deste livro é “uma questão de família, não temos comentários a fazer”. Na mesma missiva também esclareceram que contactaram, a respeito da correspondência entre Maria Lamas e Ferreira de Castro, “os então presidentes da Imprensa Nacional (doutor Brás Teixeira e doutor Rui Carp) e da Biblioteca Nacional (doutora Inês Cordeiro), não tendo sido encontrado em qualquer das instituições um registo ou material correspondentes ao mencionado”.

José Gabriel Pereira Bastos descobriu outras ausências no espólio. Não estão lá os livros que Maria Lamas vai anunciando em entrevistas. Em 1945, no jornal “Primeiro de Janeiro”, Maria Lamas falava em “Livro de Amor”: “É o ‘meu livro’, aquele que brotou de mim, do meu desejo de sinceridade, de fraternidade, de amor universal. Pretendi escrever VIDA.” Em 1976, na revista “Flama” dizia: “Levei a minha vida a pensar e, durante 50 anos, não pude falar (...) ‘As Confissões de Sílvia’ é a história da mulher daquela época: três volumes, o ‘Despertar’, ‘O Caminho’ e ‘Luta’. Eu sou uma das mulheres que despertaram. (...) Abri os olhos e nunca mais os quis fechar. (...) Ainda hoje há muitas dificuldades a vencer.” 
O espólio, garante Pereira Bastos, foi organizado por Maria Cândida e vendido à Biblioteca Nacional. Em 1993, organizou-se uma exposição dedicada a Maria Lamas a partir do espólio. Maria Leonor Machado de Sousa, também sua neta, e uma das herdeiras que respondeu ao Expresso, foi diretora da instituição entre abril de 1990 e abril de 1996 [a primeira mulher diretora da Biblioteca Nacional]. Maria Antónia Fiadeiro, jornalista, amiga e autora da biografia de Maria Lamas editada pela Quetzal em 2003, já tinha notado a falta de documentos no espólio. Escreveu: “Os documentos preservados ou entregues, com significado histórico, revelaram-se insuficientes. ‘O espólio é pobre. A correspondência entre Maria Lamas e Ferreira de Castro não consta. Foi levantada pela família, mas houve uma tentativa, que chegou a estar avançada, de edição de uma seleção dessas cartas, na Imprensa Nacional’, revelou-nos António Brás de Oliveira, responsável pelo sector dos espólios na Biblioteca Nacional (6 de dezembro de 1996).” José Gabriel Pereira Bastos assegura que faltam apenas as cartas, entre 1930 e 1938, ou seja, a correspondência amorosa. 
ALÉM DA MORTE 
No entender de Ricardo Alves, a relação entre Maria Lamas e Ferreira de Castro era encarada de forma diferente: “Diria que havia uma estima e uma consideração grandes entre ambos, uma relação de amizade que se mantém até ao fim da vida dele, mas ele tem outras relações. Ferreira de Castro visita-a na prisão, e ela responde-lhe em carta que a amizade dele é o tesouro mais precioso que ela tem.” Maria Antónia Palla não duvida desses sentimentos: “Numa das visitas que lhe fiz no Alentejo, numa altura que para comunicar com ela tinha de escrever num papel, porque ela já estava muito surda, aconteceu por acaso passar, naquela noite, na televisão um documentário sobre o Ferreira de Castro. Ela agarrou-me a mão e ficou agarrada a ela. Olhava para mim, como quem diz: ‘vês, vês’”.
Muito novo, “com 22 ou 23 anos, criou o ex-líbris ‘Ainda para Além da Morte’ que nunca usou”, sublinha José Gabriel Pereira Bastos. E há ainda um documento no Museu Ferreira de Castro que estava junto das cartas de Maria Lamas para Ferreira de Castro e que, segundo o neto, não saiu “de certeza” da máquina de escrever de Maria Lamas “mas da máquina de Ferreira de Castro”. Chama-se “Viagem” e nele descreve-se uma obra: “Depois da viagem tormentosa, apesar de cortada de peripécias às vezes dolorosas, fica uma ternura infinita. A recordação das suas tardes de enlevo. Destino parece, porém, mais forte. Separa-os constantemente. Mas os preciosos manuscritos vão ‘ainda para além da morte’. Aos pés de um morto, evocarão, para sempre, as horas vividas e as horas que não viveram. (...) Com o fim vem a espiritualidade.” Uma espiritualidade que Maria Lamas, feminista e mulher romântica, sempre atribuíra ao amor, ou ao amor maior que a vida vivida: “Amar a vida em todas as suas expressões e dar-me a esse amor como se eu própria fosse uma labareda da grande fogueira invisível e eterna.” Eterna.

Revista E | +E, 19 Jan, 2019

AMOR AO PAPEL





AMOR AO PAPEL


Todas as cartas de amor são ridículas e outras nem chegam a sê-lo


<span class="arranque"><span style="color:#fe2e2e">Icónica</span></span> A maior carta de amor que se escreveu foi em verso: o poema de Alexandre O´Neill ‘Um Adeus Português’, que é uma despedida da amante Nora Mitrani, aqui fotografada por Fernando Lemos <span class="creditofoto">FOTO Cortesia Coleção Berardo</span>
Icónica A maior carta de amor que se escreveu foi em verso: o poema de Alexandre O´Neill ‘Um Adeus Português’, que é uma despedida da amante Nora Mitrani, aqui fotografada por Fernando Lemos FOTO Cortesia Coleção Berardo

As grandes cartas de amor foram todas concebidas em papel. Saramago terá mesmo dito que nunca uma lágrima molhará um e-mail


Texto Clara Ferreira Alves


Fernando Pessoa, ou Álvaro de Campos, sabia do que falava. Todas as cartas de amor são ridículas. O poema é a mais acertada descrição do género. A epistolografia amorosa quase sempre se revela embaraçosa para grandes autores, sejam eles Dostoievski ou James Joyce, Beethoven ou Napoleão. A carta de amor estipula uma intimidade que, no papel, e as grandes cartas de amor foram todas concebidas em papel ou não as teríamos hoje disponíveis para a curiosidade ou emulação, raramente traduz a beleza encriptada da poesia ou a grandiosidade sociológica da ficção. Quer isto dizer que as melhores cartas de amor foram as inventadas ou sugeridas nos grandes romances e nos grandes poemas de amor. Creio ter sido Saramago quem disse que nunca uma lágrima molhará um e-mail e é verdade. No papel podemos tatear o sulco salgado e apreciar a dor de quem a escreveu. Se houver dor.
Há cartas de amor que nem chegam a ser cartas de amor, incluindo as de Fernando Pessoa a Ofélia. Comecemos por estas. Pessoa não era dado a sentimentalismos situados numa longitude e latitude afastadas da sua cósmica inteligência. O amor pode ser comezinho e Pessoa decerto sabia que era, mas teve, como temos todos, a humana tentação de o sentir e, mais do que isso, de o expressar em palavras. Embora a carta de amor esteja em declínio no WhatsApp, no Facebook e no Twitter, não há espaço nem cabeça, no tempo de Pessoa, na dobra do século XIX para o XX, do romantismo e do realismo para a modernidade, ainda era um género considerado. Um autor, um artista, devia a si próprio e à sua biografia umas cartas de amor. As damas ainda precisavam da sedução epistolar antes de sucumbirem à sedução fatal. E o telemóvel ainda não tinha sido inventado.

Não estranhemos que um realista lúcido como Eça escreva uma carta de amor a Emília de Resende, a mulher com quem se casou, ou que um intelectual como Fernando Pessoa comece uma carta a Ofélia assim: “Meu Bebé, meu Bebezinho querido”. E continua: “Sem saber quando te entregarei esta carta estou escrevendo em casa, hoje, domingo, depois de acabar de arrumar as coisas para a mudança de amanhã de manhã. Estou outra vez mal da garganta; está um dia de chuva; estou longe de ti — e é isto tudo o que tenho para me entreter hoje, com a perspetiva da maçada da mudança de amanhã, com chuva talvez e comigo doente, para uma casa onde não me espera absolutamente ninguém. Naturalmente (a não ser que esteja já inteiramente bom e arranje as coisas de qualquer modo), o que faço é ir pedir guarida aqui na baixa ao Mariano Sant’Anna, que, além de ma dar de bom grado, me trata da garganta com competência, como fez no dia 19 deste mês quando eu tive a outra angina”. Quando chegamos ao Mariano e à competência otorrinolaringológica já percebemos que o padecimento do nosso poeta não é amoroso, é vagamente ensimesmado e hipocondríaco. Pessoa queixa-se, sim, da solidão existencial a que se dedicara, e é nesta confissão do medo da casa vazia que se inscreve uma lírica pessoana e a pessoa semi-heteronímica de Bernardo Soares. Adiante, na dita carta, Pessoa queixa-se do desinteresse de Ofélia pelas suas doenças, acha que ela se aborrece, e acusa-a de, por estar bem de saúde, se estar ralando para o que os outros sofrem. A peça quase se torna cómica na perseguição de uma relação consigo mesmo, a única relação séria que Pessoa teve. O poeta despede-se: “Adeus amorzinho, faz o possível por gostares de mim a valer, por sentires os meus sofrimentos, por desejares o meu bem-estar; faz, ao menos, por o fingires bem. “As Ofélias têm triste sorte na literatura. É, de qualquer modo, uma carta onde Pessoa pôs quanto era neste mínimo que fez, como apregoava Ricardo Reis.

No polo oposto estão “As Cartas Portuguesas, de Soror Mariana Alcoforado”, a consagração do género. As “Lettres Portugaises” escritas pela freira de Beja, e publicadas pela primeira vez em França, só apresentam o problema de poderem não ter sido escritas pela freira de Beja. À parte isso, são amorosas e um cânone indisputável. Mariana nasceu em Beja em 1640, de uma família poderosa. Aos onze anos, foi enfiada no convento para ser poupada às lutas da Restauração e para cumprir uma tradição familiar. Sem vocação religiosa, Mariana cresceu embalada em tédio e cânticos. Um dia, chegou à cidade um cavalheiro estrangeiro, Noel Bouton de Chamilly, que integrava um regimento francês que ajudava os portugueses a sacudir o domínio castelhano. Mariana tê-lo-ia visto da janela do convento, gradeada supõe-se, e apaixonou-se. Terão consumado o pecado daquele secreto enlace, sabe Deus como, até que toda Beja se pôs a comentar, e o cavalheiro, conde de Saint-Léger, saltou ligeiro do caso com medo das represálias dos Alcoforados. Seguiu para Paris, onde as cartas acabaram publicadas com grande sucesso e mistério. Tanto romantismo doloroso comoveu a aristocracia francesa, embora as atribuíssem a uma pena máscula. São cinco cartas de uma mulher abandonada e que espera e desespera do amado. As respostas de Bouton, apócrifas, bem como tudo o que rastejou na cauda das “Cartas”, continuaram o folhetim. Pensa-se que o best-seller possa ter sido escrito por um jornalista e diplomata francês, Gabriel de Guilleragues, secretário do príncipe de Conti. Com este balde de água fria, as cartas não se molharam. Sobreviveram aos séculos e continuaram de excelente saúde, tal como Mariana, que chegou a Soror e morreu com mais de 80 anos, abadessa do convento. Para quem aprecia a delicadeza do espasmo, recomenda-se.

E o Eça, o nosso Queirós? Brevemente, diga-se que as cartas eram para a legítima e traduziam um sentimento não muito diferente do realismo anterior ao casamento, quando em Newcastle ansiava pelo contrato com uma mulher que lhe serrotasse numa manjedoura uma palha honesta. A Emília, escreve: “Cada dia que passa, agora, me aproxima de si (…). Eu também não realizo bem a situação. Ela não deixa de ser ligeiramente romântica. Separamo-nos amigos, reencontramo-nos noivos”. Passava-se isto em 1885, e menos romântico não se pode ser naquele advérbio, “ligeiramente”. Eça, como Pessoa, nunca se desmentiu.

Se quisermos uma carta de amor a preceito na nossa língua, uma carta de romântico em pleno Romantismo e espigada por um grande escritor romântico, temos de recorrer a Garrett, João Baptista de Almeida Garrett, visconde. E às Cartas de Amor à Viscondessa da Luz, de seu nome Rosa Montufar Barreiros, casada com um oficial do Exército da confiança de D. Maria II e feito Visconde de Nossa Senhora da Luz. Exatamente, cartas a mulher casada, proibição que aguça a pena e o engenho. Não que Garrett necessitasse, que os tinha em abundância. Numa das cartas se contém a célebre frase, “possuir-te é gozar de um tesouro infinito”. Consta que a senhora viscondessa era belíssima e o nosso Garrett perdeu a cabeça: “Tinha desesperado de encontrar a mulher que Deus formara à minha imagem e semelhança — achei-a em ti, e já não desejo a vida senão para a gozar contigo e para me arrepender a teus pés do mal que fiz, do tempo que perdi, do que te roubei da minha existência para o mal empregar nas misérias de que me tenho querido ocupar”. Garrett jura que não existe para ele nenhuma outra mulher, embora tentasse, o espírito rebelava-se e o coração ficava indiferente. E remata, romanticamente, amorosamente, galhardamente: “Eu a ninguém amei, a ninguém hei-de amar senão a ti”. Isto, senhoras e senhores, é uma carta de amor. Não foi apenas à viscondessa da Luz que Garrett as escreveu. Houve outras, não menos apaixonadas. O homem era sincero em todas.

Não podemos deixar de lado a Espanca, Florbela, poetisa de Vila Viçosa. Se Soror Mariana, ou alguém por ela, contém o cânone desta epistolografia, Florbela é uma espécie de manual do que uma mulher não pode, não deve nunca escrever a um homem. Nunca deve chamar-lhe “meu pequenito adorado”. Não. Muito menos dizer-lhe “como o meu desequilibrado e inconstante coração de artista se prendeu a ti. Como um raminho de guerra que criou raízes e se agarra cada vez mais. Muito menos afirmar “vim para os teus braços chicoteada pela vida, e quando às vezes deito a cabeça no teu peito passa pelos meus olhos, como uma visão de horror, a minha solidão no meio de tanta gente”. Um e-mail com estas características daria hoje azo a considerar a senhora uma depressiva com traços neuróticos, necessitada de um bom Prozac. E o destinatário da missiva ficaria aterrorizado com a dependência e a tremenda imagem da hera a criar raízes. Preciso de espaço, diria ele. E, por favor, leva para tua casa a máquina Nespresso, remataria, significando o fim da relação. Os tempos são outros, é o que é, tentemos considerar tais manifestações como relíquias.

Em bom português, a maior carta de amor que se escreveu foi em verso. O poema de Alexandre O’Neill ‘Um Adeus Português’, que é uma despedida da amante Nora Mitrani, é uma longa carta sacrificial, explicando a impossibilidade do amor. Sendo um poema, é na verdade uma carta, uma mensagem destinada a ser lida e interpretada por uma pessoa primeiro e o universo depois. É um poema perfeito, está ao lado de ‘Tabacaria’ de Pessoa como um dos grandes poemas da história da literatura. “Não podias ficar nesta casa comigo/ em trânsito mortal até ao dia sórdido/ canino/ policial/ até ao dia que não vem da promessa/ puríssima da madrugada/ mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual./ Não podias ficar presa comigo/ à pequena dor que cada um de nós/ traz docemente pela mão/ a esta dor à portuguesa/ tão mansa quase vegetal (…)”. A pequenez do salazarismo e as restrições da liberdade fizeram deste fim do amor uma carta de renúncia. Nora seguiu para Paris, Alexandre ficou em Lisboa.

Lá fora, e em todas as línguas, abundam os exemplos de cartas de amor. Por exigência politicamente correta ou prática da diversidade, conforme o ângulo, realcem-se as de Oscar Wilde a Lord Alfred Douglas, o seu “pequenito adorado”, que deram direito a cadeia quando a homossexualidade era um crime, e a carta de Vita Sackville-West a Virginia Woolf, que é um primor de descrição e concisão. “Estou reduzida a uma coisa que quer Virginia. Compus uma bela carta para ti durante as horas sem sono da noite de pesadelo, e tudo se esfumou: apenas sinto a tua falta de um modo simples e desesperado de tão humano”. Que teria Virginia respondido? No círculo de Bloomsbury, a promiscuidade era tão grande como o talento.

E, já que falamos de lordes, convém não deixar de lado Lord Byron, mad bad and dangerous to know, que escreveu cartas de intensidade amorosa a uma Teresa de Guiccioli jurando que antes de a conhecer gostava de muitas mulheres mas depois dela mais nenhuma. “Agora, que te amo, não existe nenhuma outra mulher no Mundo. Falas de lágrimas e da nossa desdita. O meu sofrimento é interior, não choro (…). Passava-se isto em 1819. O seu “amor adorado” e “tesouro adorado” pelos vistos não estava feliz, o que não admira tratando-se deste Casanova aventureiro. Byron não foi fiel a nenhum dos tesouros e amores, e acabou enleado em infindáveis intrigas romanescas e escândalos sexuais. No grupo dos românticos ingleses em Itália, a promiscuidade era tão grande como o talento. Morreram todos cedo e tragicamente, como manda a lei.

Sem ceder ao melodrama, citem-se as cartas de amor de Hemingway para Marlene Dietrich. Conheceram-se a bordo de um barco de cruzeiro e durante trinta anos foram amigos e corresponderam-se como almas gémeas, de 1949 a 1959. Trinta cartas e uns telegramas. A Dietrich admirava o macho Hemingway, o talento e a coragem, a ousadia, e Hemingway admirava aquela mulher bonita, indomada e original. Há quem diga que nunca prevaricaram. Uma carta dele para ela foi a leilão em 2017, para gáudio geral, e outras foram sendo vendidas pelos herdeiros. A prosa tem por vezes as virtudes da escrita hemingwayana, a precisão cirúrgica e a métrica, a modernidade da linguagem, a secura. O humor. Ele chama-lhe queridíssima Kraut, deve ser por causa do sauerkraut. “Nós os indestrutíveis, temos de manter-nos em contacto. Eu sou um velho indestrutível e tu uma jovem. Mas sabemos mais do que os outros”. “Querida Marlene: sempre te amarei e admirarei e tenho toda a espécie de sentimentos contraditórios sobre ti (…). Por favor acredita que te amo sempre e às vezes esqueço-te como me esqueço de que o meu coração bate, mas bate sempre”. Hemingway confessou ao seu biógrafo, A. E. Hotchner, que os dois foram vítimas de uma paixão não sincronizada.

Uma frase que faz duvidar da castidade do casal é esta: “Não consigo dizer como de cada vez que pus os meus braços à volta de ti me senti em casa”. O que é certo é que Ernest Hemingway resumiu numa frase aquilo que a Espanca não conseguiu dizer em resmas de papel molhado de lágrimas reais ou virtuais. Que o amor pode ser uma definição simples e total, sem ser ridícula. O amor dos indestrutíveis durou até ao suicídio do escritor, em 1961.

Expresso E, 19 Jan, 2019

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